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Editorial | O que o isolamento e a distância social fez com o nosso time

Com as autoridades de saúde recomendando o isolamento como único método de controle da pandemia, os efeitos do Covid-19 têm sido devastador no mundo todo. É imensurável a dor e as perdas que milhares de pessoas sentiram nestes últimos 5-6 meses, sejam elas sentimentais ou econômicas. No Brasil, estamos quase fechando o terceiro mês de isolamento, e os números de casos vêm crescendo de forma assustadora. 

O futebol feminino, que historicamente sofre com tantas dificuldades e, que nos últimos anos, vinha de uma crescente, passa por um processo de involução e abre novamente o debate e dúvidas que éramos acostumados: Como estaremos quando voltarmos a treinar e a jogar? Ainda teremos as competições estaduais e nacionais? O quanto essa crise tem afetado aqueles que vêm investido no futebol feminino, mesmo sem muito retorno, porém com um ideia a longo prazo e fé na modalidade? Será que os clubes irão conseguir manter a mesma força? Quantos times tiveram que fechar as portas? E os que mantiveram as portas abertas, quais condições providenciaram para a sua comissão e o elenco durante esse tempo tão difícil e delicado? 


A dificuldade do planejamento vem da falta de experiência com uma crise semelhante como esta. Sem qualquer referência no meio do futebol, nenhum profissional da área por mais qualificado, estudou ou se preparou para "como manter um clube ativo durante tempos de pandemia", que além de abalar o cenário esportivo, também devasta toda a sociedade. 

Eu gostaria então de compartilhar a experiência que estou tendo com o Minas Brasília Futebol Feminino durante esse período e como a pandemia tem nos afetado.

Do campo para a tela do celular


O futebol como definição é um esporte coletivo e que quando no nível profissional aumenta ainda mais o número de pessoas envolvidas para o sucesso do time. É um esporte socialmente e culturalmente dependente do grupo de pessoas e do contato diário. E o acontece quando esse contato pessoal não existe mais? 


Precisamos nos reinventar e ajustar. Eu estaria mentindo se eu falasse que desde do princípio todas as atletas e funcionários estavam completamente abertos e confortáveis fazendo reuniões e treinos via plataforma digital. A primeira reunião foi um desastre, tinha gente que não sabia ligar a câmera, colocar o microfone no mudo, entrar na plataforma, a internet que era pré-paga não suportava, o celular talvez não era bom suficiente, a concentração e atenção não estavam acostumados a olhar para uma tela pequena, e sim, para um campo de futebol inteiro. Como mecanismo de defesa, alguns se fechavam, evitavam se integrar e demonstravam falta de interesse. 


Nós, como membros da comissão, que não sabíamos exatamente o que estávamos lidando, no começo tínhamos paciência para aquelas que não queriam ou não conseguiam participar. Quando a realidade bateu, e começaram o baile de" prorrogações de uma possível data de retorno", essas atletas não tinham mais escolha. 


A sua realidade agora é essa, não é mais o campo e sim a tela do celular.

Reinventar e Adaptar


Começamos a reinventar tudo, a forma que nos reunimos, a forma que treinamos e a forma que nos comunicamos. E toda vez que a gente agendou uma futura reunião, o propósito sempre foi reavaliar e melhorar, independente se a reunião fosse teórica, sobre conteúdos do campo ou um treinamento físico. 


Para a nossa comissão, essa pandemia nos ensinou e lembrou fortemente sobre a importância de antecipar problemas e adversidades. Porém, também nos ajudou a entender que a nossa responsabilidade chega a um limite. 


Para as nossas atletas, a distância as ensinou fortemente sobre a importância da auto- responsabilidade e disciplina. Atletas que eram acostumadas a um estilo de vida agrupada e uma agenda restrita organizada pela comissão, neste momento, as atletas perceberam que elas, mais do que qualquer um, sem imposição externa, são completamente responsáveis pelo próprio sucesso.


Respeitando o momento que abalou muitos de nós mentalmente, deixamos a maioria dos treinos com horários flexíveis durante o dia. No começo exigimos vídeos, porém, não como prova que a atleta estava fazendo o treino, mas sim para garantir que todas estavam fazendo os exercícios de uma forma segura, correta e optimizando o movimento. Portanto, com a nossa confiança, as jogadoras fortaleceram a disciplina e motivação pessoal. 


E o trabalho quando é bem feito, não precisa ser meticulosamente acompanhado, porque as pessoas que não os fazem simplesmente ficam pra trás. E ninguém quer ficar pra trás. Essa é a cultura que criamos.


Focadas nos detalhes


Sabe aquela receita culinária que sua família sempre faz, que você sempre observa fazendo, mas você nunca fez sozinho(a)? Você poderia até me falar todos os ingredientes da receita mas não saberia ao certo a quantidade e a ordem de cada ingredientes nessa receita. Provavelmente também não saberia o que fazer se algo desse errado. Você não tem controle da receita, porque a memória principal que você tem dessa comida é o resultado final dela: você comendo. 


O mesmo acontece quando atletas estão tão condicionadas à ter alguém as instruindo. Os detalhes podem simplesmente passar despercebidos, e muitas das vezes acabam até perdendo instruções importantíssimas e não necessariamente entendem o porquê de fazer o que estão fazendo dentro ou fora de campo.


A distância fez com o que as atletas do Minas Brasília, não só se tornem mais disciplinadas, mas também focadas no detalhes. Para quebrar esse laço de dependência entre jogadoras e instrutores/treinadores, os detalhes foram repetidos muitas vezes, o suficiente para que elas saibam se corrigir e entendam o por quê da ordem e dos motivos. Nos aspectos físicos, sabe o que acontece quando a atleta foca nos detalhes? A velocidade de sua evolução se potencializa, podemos passar de níveis de aprendizagem mais rapidamente e cria-se algo muito importante: uma consciência corporal e, consequentemente, muito respeito e confiança no seu próprio movimento.


O privilégio de termos tempo




É sempre um correria. 

Jogar o Brasileirão A1 parece que sempre estamos sem tempo para nos preparar. É muita viagem, muito jogo, muito treino, muito cansaço e etc. E parece que nunca temos tempo. E graças a paralisação e o isolamento, ganhamos tempo! 


Tempo para falar de metodologia do jogo, alinharmos idéias, conversar com os resto da comissão e incluir aqueles que estavam mais afastados. Tivemos mais tempo para analisar jogos, analisar os nossos jogos, definir conceitos, criar conexões e debates. Mais importante, fortalecemos a ideia que não podemos exigir que atletas se comuniquem dentro de campo se a gente não as deixa praticar e exercitar a comunicação fora dele.


Nos reinventamos para falar sobre conteúdos teóricos, criamos atividades divertidas e incluímos todas as atletas na criação destas. Nos atentamos para não julgá-las quando falavam, focamos mais em alinhar as ideias e descartar o medo, do que apontar culpados ou o "porquê" de não sermos alinhadas antes.


A comissão exerceu o papel de ouvinte e começamos a entender que não deveríamos dar as respostas para tudo e que dentro de um grupo de mais de 30 atletas, elas entre si, conseguem responder às suas próprias dúvidas dos debates. O foco não está na discrepância de ideias, mas sim na necessidade de evitar dúvidas e incertezas futuras, porque são nas dúvidas e hesitações que nascem as falhas e os erros dentro de campo. 


Independente se for no contexto do time ou dentro da vida pessoal, as atletas então se tornam responsáveis também por achar soluções ao invés de apresentar “problemas”. E quando tivemos que nos envolver, a pandemia nos deu tempo para termos um contato mais pessoal. Afinal, durante o campeonato tudo fica tão corrido que as vezes nao conseguimos parar pra ter uma conversa franca e conseguir entender o momento de cada um.

E quando há diálogo, cria-se também respeito e empatia.

Todo mundo está lutando uma batalha que você não sabe


Quando a gente tem tempo pra entender o momento de cada um, as pessoas se tornam mais humanas além de jogadoras. Nem tudo no futebol é gramado, bola, técnica, tática e treino físico. O isolamento nos deu a oportunidade de criarmos reflexões, e dentro de uma delas, o nosso time assistindo a série "The Last Dance" do Michael Jordan, a comissão perguntou:

"Michael disse, 'Quando você fica mais velho, você olha pra trás e entende como você se tornou a pessoa que se tornou. Eu não acho que eu estaria aqui sem a lições e aprendizados que eu tive quando era mais novo. A competitividade dentro de mim, começou quando eu era muito jovem.'


A pergunta do segunda episódio será uma reflexão: Qual foi a maior lição que você teve ainda nova que mais impactou a pessoa e jogadora que você se tornou hoje?"


E as resposta que recebemos?! Uau. 

Quantas guerreiras, lutadoras e mulheres extraordinárias o Minas Brasília tem dentro do seu elenco. E que honra a nossa de cruzar o caminho dessas mulheres e continuar impactando a vida delas. 


A jornada é mais importante do que o destino

Especialmente quando não se sabe mais quando e como chegaremos neste destino. Não sabemos mais quando voltaremos a jogar um jogo. Ao Invés de focar nessa incerteza, a pandemia nos forçou a aprender a importância da jornada. Nos ensinou a acordar todos os dias e fazer o nosso trabalho mesmo sem ter um dia de volta pré-determinado. Nos fez focar no que podemos controlar agora, e por que não tentar sair dessa crise ainda melhor do que quando entramos?


Como time, entendemos que é melhor olhar pra trás e saber que tivemos perseverança durante a crise, e mesmo que nos falte ar quando começarmos a correr, iremos saber que não paramos quando estávamos sozinhas. E que os obstáculos do futuro serão menores, porque escolhemos não só sobreviver quando distantes e isoladas, como também crescer e evoluir. 


Do outro lado da tela, durante essa jornada, a comissão buscou se capacitar e a se integrar mais. Membros chegaram à conclusão que não é necessário fazer tudo sozinhos, que essa crise nos deu uma chance de nos unir (mesmo que online), compartilhar mais as tarefas, e fomos obrigados a lidar com problemas pendentes e finalmente resolvê-los em grande parte.


E o mais importante, a pandemia deu a chance de nascer novos líderes. Como grupo, acredito que começamos a entender a função de cada um e fortalecemos as qualidades de pessoas que às vezes não eram tão envolvidas nos processo. 

O Minas Brasília, como empresa e como time, amadureceu durante a crise



E para os times que não tiveram essa sorte, ainda temos tempo pra mudar a cara dessa pandemia para algo melhor para todos nós! 

O futebol feminino está mais unido do que nunca, então procure ajuda! 

Esse tempo pode servir também como aprendizado, onde olhamos pra trás e pensamos:


"não só sobrevivemos, mas nos tornamos melhores.”

Por Nádima Skeff | Auxiliar técnica Minas Brasília

Revisão: Eduardo Ronque | ASCOM Minas Brasília